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TELURICUM 25 Apr 2019 3:53 AM (5 years ago)

computador eletrônico/ esqueceu como é que se fala/
que essa saudade antagônica/ não tá cabendo na mala/

meu coração monogâmico/ não soube como te amar/
minha visão supersônica/
não te viu chegar/

e agora tu partes/ como quem parte um amor/
já não me restam combates/ é para marte que eu vou/

estou preso num manicômio/ com uma fome de ontem/
gritei teu nome mil vezes/ e hoje acordei afônico/

sou versos mudos/ só gestos/ minha garganta é um deserto/ tua miragem me mira/ minha cabeça é uma ilha/
estou naufragando sem mar/ estou me afogando nas nuvens/ será que devo nadar/ ou aceitar meu diluvio?/

às vezes sei o que quero/ às vezes finjo saber/ minha tendência esotérica-marada/ só faz lembrar você/
vou me embrenhar nas minhas cinzas/ para renascer telúrico/ pura verdade/ te juro/ e pra te provar/
me calo/

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o homem de trinta
volta a frequentar salas acadêmicas com cadeiras
e não mais bolas de pilates

não deixar a academia atrapalhar meus estudos
acabou atrapalhando minha conta corrente

volto a ser um ser sem luz
das 13:30 até às 17 e 20

aluno
do latim
alumnu
não sei o que
não sei que lá

sem luz
não significa
sem brilho

a chama acessa
e coronária
essa não cessa

como sergio sampaio
que acelera na copacabana
para caber na métrica
me coloco no meu lugar
para começar tudo outra vez como todo novo começo


eis meu fogo cardeal

e digo mais
Arcoverde era careta
la mala leche, Arcoverde

proibiu o ritmo corta jaca
na corte de ruy barbosa
não tem perdão para você

e hoje em dia, estamos ai,
na
rádio
atividade

narrando coisas
como
como
a novinha
quica no chão

e é isso ai
o homem de trinta nunca deixou de ser o menino de 18

e ele agora é o menino de 18 com mãos de 16 e pés de 42

meus movimentos cansados
denotam tão somente e apenas
que estou inteiro




dessa vez
recolhi os cacos
dessa vez
aparei arestas

dessa vez
peguei o troco
e contei
o troco
como quem
do fundo do coração
queria mesmo
balas esféricas de canela

dessa vez eu ouvi minha voz de dentro
antes do grito mudo
no hospital
da gente

e digo mais
agente se escreve junto 
starway to mambo
ela disse

uso capião
eu penso

capinar o tempo
o vento responde

e o churrasco se faz pano de fundo
para uma firma
arquitetada
na cabeça de um furacão
menina

- já transei todo mundo nessa sala,
ela anuncia

menos eu
penso primeiro
depois falo
enquanto arrumo as linguiças de um jeito
que o cão de baskerville
não consiga alcançar

deito meu corpo em sinal de resignação perante ao meu domingo

hoje não bebi
hoje não fumei

não pagar pelo que eu não consumo
tem me feito bem


quem tem uma vela acessa
em frente ao espelho
têm duas

água brahma & coca

bambu pra varal

potato square e sua bandeira inútil de uma pátria que não foi parida por mulheres

o amor seguido da ordem e do progresso
não é amor

é controle,
controle de caixa

ainda bem que temos tempo

o seu relógio somado ao meu
faz um dia qualquer
ter 48 horas

like a falcatrua 13 Mar 2019 8:10 AM (5 years ago)



e vai rolando,
seja abismo, seja céu, seja ladeira escorregadia.

vai rolando,
trabalha e confia sua loucura
antes que alguma instituição te engula.

vai rolando,
atrapalhe e atrofie essa
caquética necessidade
de enrolar-se
em panos quentes
pela cidade.

talha à navalha
tua obra no teu ombro
e vai rolando,
que ousadia estática
cria craca,
cria limo,
cria empecilhos para o salto quântico:

não importa o quão devagar você role,
a questão maior é não ser estátua viva,
daquelas que dependem de um níquel que quica
no chapéu para o próximo movimento,
seja ele gigante,
invisível ao olho condicionado,
seja ele minúsculo,
imperceptível ao olho nu: nuvem monumento vivo.

vá e rache e rale e embole e saltite/ no frenesi da assimetria/ grite:

boa tarde,
boa parte dessa vida é saber morrer sem o consentimento da Morte.

just like a falcatrua/ morra/
mas fique na tua/
grave no seu ataúde/ greve/
essa morte não é sua/

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e no fundo

bem lá no fundo

tanto faz

a gente só precisa de um espelho que diga

está tudo bem

tudo bem

fica tranquilo

um disk-não

que nos conforte:

"não, magina, que isso"

Março, 2013, Parque Julieta, minha era da desforra vitoriana em derrotas rechonchudas:  pesava 90 quilos sendo 20 provenientes de um pout-porri de medicamentos e muitas bolas de manteiga. Visto um moletom de 2006 de um hard rock café Barcelona. O casaco é cinza e claramente não me cabe mais: muitas coisas não me cabiam e eu continuava usando. Gostava de sentar na bicicleta ergométrica enquanto fumava meus cigarros e ouvia uma música do Dylan na voz do Van Morrison no repeat infinito: It´s All Over Now, meu bebê azul. Eu cantava, eu fumava, eu comia enquanto fumava e comia e cantava e pedalava enquanto fazia tudo isso e assistia o fim da minha sanidade. Eu, o retirado da sociedade para uma reabilitação psicossocial: they trie to make me go e eu escorri pelo ralo, no aqui irreversível, no tempo dissoluto, na minha cabeça em ruínas. O Nando, menino novo de Mogi das Cruzes, às vezes cruzava comigo pelos pastos psiquiátricos e ficava de papo, gostava de trocar uma ideia (sic) comigo. Gostava do jeito que eu jogava a real (sic). Mais de uma vez repetiu como seria irado (sic) fumar um baseado comigo assim que ganhássemos alta da clínica cínica composta de um maquinário rupestre em se tratando de saúde mental. Nando foi pego no famoso esquema mãe-desesperada-revira-gaveta-de-filho-vadio-e-encontra-uma-paranga-de-cinco-e-manda-internar. Internar. Mandar internar. Sanitarizar a loucura como resultado de uma providência pseudohigienista, aparamento compulsório de arestas psicolaicosomáticas, a lixa no lixo orgânico de cabeças voltadas para dentro e para fora na velocidade de entendimento a partir do olhar-sofrer. Falo de mim. Do Nando não sei. A mãe dele assinou uma cela de 7 dias e encheu o guri com nutella e fandangos que acabei herdando ao final do seu retiro. O Nando tinha ido pruma colônia de férias. Eu não. Eu estava internado: surto: suturas de realidade desprendendo-se das paredes da hiperlucidez. O Parque Julieta era a terceira instituição que me recebia num intervalo de três meses. Da primeira, eu nem passei da recepção, minha mãe pediu para usar o banheiro e viu pacientes amarrados com correntes no pé do leito da cama. Santa Casa da misericórdia ausente. Não me internei ali, mas fiquei detido com três anjos louros de branco terrível numa sala suja por três horas respondendo perguntas aleatórias sobre superpoderes e drogas. Lembro do olhar coliforme da psiquiatra residente buscando no meu âmago algum traço de coerência funcional perguntando em que dia do calendário estávamos.  Dei a coerência funcional que ela pediu, mas dei também argumentos do teatro dos aflitos que ela jamais esquecerá. Ou sim, esqueceu e foda-se. Nesse mesmo dia, horas antes, amanheci na Praça Roosevelt deitado com mais alguns corpos no chão. Eu tinha estacionado sem seguro na justiça ilegal do leilão sambão teatro. Corpos que como eu não tinham recursos internos para voltar para casa. Corpos desprendidos da órbita social minimamente aceita. Eu cheirava a conhaque e ressoava a pureza do gengibre. Quando fui removido, me vesti todo de branco e, por dentro, cores dissonantes arquitetavam a loucura sem acordes no meu peito. Tinha a unha de cada dedo mindinho das mãos pintados de azul-nossa-senhora. Salvo ou não, dali da Casa Santa fui levado para a Clínica Conviver na rua Cotoxó. Fui de passageiro com meu pai conduzindo e minha avó e minha mãe no banco de trás e lembro do meu olhar de despedida enquanto desfilava de janela aberta pela Professor Alfonso Bovero e acenava com o rosto para desconhecidos na marquise de um bar. Era o meu fim ali e eu estava inteiro nele. Achei que jamais voltaria a colocar os pés na rua e na verdade nem queria. Estava resoluto. É importante ratificar que eu pedi para ser internado porque eu estava cansado de ler o mundo. Eu vinha de uma jornada de autodestruição neoconstrutiva de merda e estava encharcado de sono laboral. Não acredite em ninguém que diga que não precisa dormir. Eu queria descansar. Pedi para ser internado para poder dormir longe das ruas. Mas a rua não saiu de mim e acabei apanhando mais do que descansei. A literatura dos anos 50 barra 60 barra lucífer tinha me iludido com manicômios poéticos. Sempre fui um deslumbrado vadio além de um deslumbrante vagabundo. Aliás, minha vadiagem fez escola nos anais de algum lugar. Mas isso é outra história. Nem existiu e já é outra história. A vida inteira eu tracei paralelos com histórias tiradas do além-real e teve um dia em específico que eu decidi vive-las, o dia que escolhi cruzar o muro da vontade em aceitar que ainda havia fogo em mim para resistir a minha condição. Eu cuspi tantos dias de luz que me julguei submerso na incapacidade de reverter meu oceano de caos. Arreganhei os dentes dentro da jaulinha da filosofia. Joguei sabão em pó de pirlimplinada no chá da enfermaria de choque e recebi o tratamento da arara amarrada sem papagaio. A olhos vendados, estava sendo ensinado a conviver mijando em mim para me esquentar porque o ódio não produzia cobertor suficiente. Eu tinha amor brotando de toda aquela violência. Muito amor. Amor e um livro do Bukowski e Camila Lauren, a LoraxoGirl, outra interna que me enlouqueceu para o bem quando me resgatou no meio do refeitório com uma entrada flamenca triunfal e um cabelo vermelho que me fez pular de dentro do meu café com leite e dançar um tango com a língua. E eu me tinha também, Mister Quietiapína. Meu superpoder era opinar mesmo estando quieto.  Conviver ficou pequeno. Bom & mau, definiram os termos na porrada. Quem cu tinha, temeu e temerá assim como eu temi, temo & temerei. O livro do Bukowski teve que passar por três psiquiatras até ser aprovado. O Dalton Trevisan não, esse passou sem vaselina com a Guerra Conjugal, um livro muito mais psicopata que os textos autobiográficos do velho bebê beberrão. Eu tinha livros com páginas arrancadas porque os livros me eram tirados como sinal de reeducação psicossocial. Eu tinha cigarros racionados porque os cigarros me eram tirados como sinal de reeducação psicossocial. Eu tinha visitas dominicais para as quais me preparavam com doses sobre-humanas de antipiscóticos porque me era tirada a dignidade como sinal de reeducação psicossocial. Eu tinha ojeriza da minha imagem no espelho. Não era eu ali. Aquilo não era convívio: laboratório labiríntico do minotrauma. De quando eu entrava no banheiro e a luz permanecia apagada inclusive para fazer a barba, um dia me flagraram no escuro com uma gilete ruim na mão e creme fedido de barbear besuntado no corpo todo. Não queria mais pelos. Aqueles pelos estavam sujos, internados. Tirava a merda do cu com o dedo. Eu não queria aquela merda internada dento de mim. Seja qual fosse o projeto de loucura estrutural da Clínica Conviver, eles conseguiram instaurar em mim o ponto fixo da agonia compulsiva. Eu queria descansar e acabei ficando acordado, bem acordado, eu e os meus três olhos. Hoje sei que o ponto fixo de agonia nunca partiu, inclusive agora quando escrevo. Só porque eu era burguês, fachada de marginal e vocabulário rebuscado, me chamavam inteligente demais para estar amarrado numa cama. Talvez eu fosse estúpido o suficiente para crer num presente manicomial que me desse o aval de fazer das roupas no varal um querido e estranho festival. A minha coragem se resumiu em despistar a vida com meu cheiro de morte. O que a reabilitação psicossocial fez foi ressaltar o lado infernal de ter memória e poder alternar entre a lógica do macro e do micro. Entrar em mim para poder entrar no todo. A Lua sempre me chamou, mas eu nasci feliz, Felipe, felino, forastero, nuevo y camino: hijo del sol e terráqueo. Escrevo como um marco referencial de transição de processos. Não nasci onde nasci ou vivi o que vivi por sorte ou azar, descuido ou displicência, nasci onde nasço para dar testemunho: escrevo para voltar ao mundo e volto ao mundo porque escrevo. Lunático é o povo que vive na Lua. Eu não, tenho meus dois pés fincados na Terra. A cabeça nas nuvens, sim, sempre e antes de Lima Barreto eu já me considerava um nefelíbata. Às vezes eu olho no espelho e eu sou essa girafa. Às vezes eu lembro de tudo e, para além da crueldade da memória apresentada num copo baixo por Deleuze e Guattari, eu sou esse elefante. Às vezes eu tomo sopa e eu sou uma mosca. Inclusive, boatos internos dizem que Raulzito, a pantera, ficou internado no mesmo Parque Julieta que eu, aonde compôs a pérola do rock baião, a mosca que perturba o nosso sono. O que me levou a conclusão que, vejamos, desde 1980 o cardápio não mudou. Era sopa de café da manhã, sopa no lanche da tarde e sopa de medicamentos para dormir afastado do mundo onírico. Macacos sagui me despertavam e ganhavam a sopa de mamão papaya que depositavam na minha porta todo dia pontualmente às 8 e 15 da manhã. Nessa época eu me alimentava pelo nariz com carreiras de rivotril milimetricamente esmagadas com minha biografia do Napoleão. Isso e cigarros, a fumaça sublime que lindamente preenchia os fachos de sol da minha internação. Lembro de tudo de cada segundo e minhas orelhas quentes de savana sabem que essa memória é uma construção coletiva. O tropeço de um é o tropeço de todos. Eu não precisava pagar de maluco beleza depois de Raul, mas paguei. O grito primal de um reverbera do dentro do todo. Só tive a plena consciência do ponto fixo da aflição contido numa contenção violenta quando parei de gritar e ouvi o grito aprisionado nos olhos dos enfermeiros de branco que, como num ritual, amarravam minhas extremidades para depois pedirem calma e paciência, que eu estava sendo curado. Eu jamais perdoarei a quantidade cavalar de haloperidol injetado no meu corpo. Jamais. Mas também sou eternamente grato pela metáfora aplicada em mim em vida. Foi somente deitado e imobilizado que eu tive a calma de respirar pelo coração e enxergar no teto sujo da clínica as asas esmagadas daqueles que ousaram fazer do dentro, o fora. Porque um surto nada mais é que todas as nossas vozes sendo escutadas amplificadas pelos quatro cantos da vida. Até quem não me conhecia podia jurar que todos os sinais indicavam para uma derradeira internação. Ninguém, nem pai, nem mãe, nem enfermeiros, está preparado para uma existência sem eira, sem beira, sem filtro, sem rédea, sem freio, sem seio, muito menos um paciente dito psiquiátrico. Definitivamente, a internação é o reflexo claro da não sabedoria em curar um trauma. A internação de alguém é resultado de um surto coletivo nascido da impossibilidade de acessar o amor maior diante de um emaranhado quântico de caos humano. Uma clínica, um laboratório, uma camisa de força: sinais evidentes de desespero genuíno. E agora um recorte seguido de um corte aritmético. Escrevo esse relato na estrada e não mais preso e não mais livre do que se estivesse em uma clínica. O mesmo capítulo que abre, fecha e abre outra vez, porque no final de cada livro, duas ou três páginas em branco são inseridas. Mais será revelado conforme o livro for se fechando fisicamente enquanto se abre para dentro de quem escreve & lê. Um cachorro encontra o outro, eles estão separados por uma grade. Focinhos transpassam, tanto de um lado como do outro, a grade. Um cachorro está dentro e o outro está fora e mesmo assim, com essa gritante descrição, é impossível discernir qual é o cão dentro e qual é o cão fora. Rabos são erguidos em sinal do império da empatia. Um cão mija na divisa, o outro cão cheira a mijada na divisa e mija em cima da mijada da divisa. É assim que eu enxergo a minha luta antimanicomial. Uma vez uma ávida, impávida e sábia mulher cruzou em linha reta meu caminho. Aconteceu de ela ser uma psiquiatra, aconteceu de eu estar amarrado numa cama. Ela balançou uma chave na minha fuça e disse ser a nossa única diferença, ela tinha a chave para sair dali. Internar um indivíduo é internar também toda a sua família terrestre, é abrir a brecha para um processo de desidentificação até ficar desconhecido de si mesmo. Hoje posso escrever e dizer sem medo que amo o mundo construído aqui no parapeito dos meus olhos, mas até chegar ao ponto do eterno retorno, eu pastei, tenho a consciência, e muito, sobre as verdes gramas do inferno que, pasmem, não é quente e nem cheira a enxofre, mas é tão familiar quanto o caminho que nos leva a fundação de nossa casa. E eu, que nunca me fiz de leitão vesgo para mamar em duas tetas, me vi afogado em afirmações de ódio próprio. Não tem chuva que caia que não me faça desejar vida eterna. A água que cai de cima é a mesma que verte da vertigem dos olhos de quem olhou além do rei no umbigo e viu o precipício do príncipe do descaso calçando a vida como quem calça galochas em um dia de sol. O olhar e o corpo e o cheiro da alma ficam marcados e ratificados e delineados pelo bem que fazemos, primeiro a nós mesmos, depois para o mundo. Não importa o quão rude tenha sido o erro de cálculo de proa que me levou para os mares insólitos do hospício, a busca pela terra sem mal é evidentemente mais clara quando eu trabalho com as minhas mãos. E como muito cedo foi tarde demais em minha vida, sempre precisei ouvir gritos de incentivo. Mas só grita aquele que que tem o coração longe de mais da razão selvagem. Eu queria ser cuidado, mas não cabia mais no colo de minha mãe. Eu queria uma rede de proteção, mas as colunas do meu estruturalismo estavam erguidas sob o império da areia e da cola. Quem me tirou de mim fui eu mesmo, quem me tirou dos murros labirínticos do descaso foi uma terapeuta ocupacional. Eu queria me ocupar de mim, mas não tinha a puta ideia de qual migalha ou caco começar a recolher. Começamos, Marcela Resende & eu, pelos meus discos. Ocupação simples, mas que sozinho eu não estava dando conta. Aliás, grande ponto a ser ressaltado: aprendi a duras e corrosivas penas que o papel que exercia de lobo solitário da urbe só me levaria mais cedo ao buraco do bueiro de uma cova. Nenhum ser humano sozinho é suficiente para o mundo nem para si. Sentar no chão do meu quarto multifacetado com Marcela Garcia e organizar os discos um a um e olhar as capas e lembrar de todas as histórias que um álbum carrega e acumula foi a fagulha da centelha divina que fez com que eu começasse a engatilhar a retomada da minha retaguarda. Sempre fui um galo bom de briga, mas esse mesmo galo acuado estava agora espremido na tentativa de voltar ao involucro do ovo. Eu acordava de manhã, abria meu armário e vestia todos os meus medos. A realidade psiquiátrica invadia assim a minha realidade laboral-social. Caminhava pelas ruas do meu bairro assombrado pela própria sombra. Qualquer pessoa que me olhasse por mais tempo era um potencial agente removedor. Toda ambulância que passava tinha vindo me buscar. Toda mulher de branco era um anjo terrível com cordas na bolsa. Foi nesse misto de inanição moral e falta de decoro para o livre arbítrio que eu voltava a cena carimbado à ferro e fogo pela insígnia do código internacional da doença, mais conhecido nas alas psiquiátricas como CID-10. Além de Felipe, eu agora também uma porção de F´s. O real significado de tantos rótulos desconheço, mas sentia o peso de cada um como bolas de feno de aço presos na canela do meu ser. Para onde quer que fosse essa seria minha subjetiva bagagem mental. Meu estigma e minha guerra. O maior trabalho diário era para cessar pensamentos em looping, pensamentos obcecados em derrubar a pauta do meu bem querer. O trabalho que mais facilmente executava era o de administrador de grafias sonoras. Eu quase não falava e, quando falava, normalmente era para explicar que eu não falava. Ir até a padaria comprar cigarros era um parto. Mas a cada maço novo de cigarro, tinha 20 novos amigos para queimar e plantar no cinzeiro. A cada dia que passava – já não os contava mais – estendia em uma hora a hora de levantar da cama. Sair da cama era validar o estado de agonia para o mundo exterior. Dormindo ninguém esperava nada de mim. Nem eu. Apertava meus olhos o mais forte possível para induzir um artificial estado onírico. Meus sonhos eram menos sonhos e mais retrospectivas. Passava a limpo e a sujo cada esquina deturpada da minha história. Era capaz de reconstruir cenas, cenários e diálogos da vida e buscar ângulos novos de escape temporal. Todo dia de manhã me encharcava de impotência e culpa. Cavava a olhos nus um buraco homérico de despropósitos. Nessa época montei meu primeiro e último time de futebol, o What If Sport Club. Joguei em todas as posições e alterei hipotética e pateticamente as jogadas do passado. Afundei meu time na oitava divisão da várzea aristotélica. A retorica barrada do lábio para dentro orbitava sem causa no céu da boca. Eram caldos atrás de caldos nas marés desconexas dos meus pensamentos, mentimentos, ensimesmamentos, desvirtuamentos. Essa é a primeira vez que documento e revivo todo meu processo no papel. Revirar tudo isso é enfiar a mão dentro de um vespeiro, é o tal do espelho visceral, os espelhos de dentro. Muitos dirão da minha coragem em dizer o que digo, mas não acredito nessa coragem. Chafurdar na lama do ressentimento definitivamente não é a melhor maneira de ficar limpo. Quero com isso proporcionar a mim a mesmo a graça do testemunho. Além da sorte ou do azar, eu vivi o que eu vivo para dar meu testemunho. Lembrei de uma cena que aconteceu na Clínica Conviver. Eu estava confinado no meu quarto, meus movimentos dentro da casa tinham sido limitados. Foi a semana da internação dentro da internação. Eu perdi o direito de interagir com os outros internos porque aparentemente eu estava plantando a semente do fogo. Queria olhar dentro do olho de cada um e ouvir os segredos mais sujos da alma. Armava jogatinas de poker apostando as bolachas waffles do café dos enfermeiros. Eu queria transar, eu tinha fome de corpos. Entre a Loraxo Girl e eu, sempre dois enfermeiros fazendo escolta. Nas oficinas de arte utilizava todas as tintas possíveis para me lambuzar numa tela em branco. Eu me pintava inteiro para ser o quadro mais exótico da clínica. Cantava Roberto Carlos e as curvas da estrada de santos no chuveiro a pleno pulmão para depois ser aplaudido no refeitório. Imitava a voz de outros pacientes a noite chamando pelos enfermeiros e instituía ali minha pequena anarquia. Minha pirraça foi castigada, apreenderam meu tratorzinho literário e fui confinado dentro do confinamento em um quarto de três por três. Era eu, minha cama e o banheiro. Um dia calculei que meu banheiro estaria exatamente em cima da enfermaria, não tive dúvida, entupi todos os ralos e liguei chuveiro e torneira. No dia seguinte soube que todos os remédios estavam encharcados. Os relatórios dos enfermeiros que já tinham perdido a paciência comigo continham barbaridades que me deixariam preso pelos próximos anos. Eu queria do fundo do coração balançar todas as estruturas daquela casa. Consegui. E talvez tenha ido além. Um dia um enfermeiro fez daquilo uma disputa pessoal, me amarrou inteiro e antes de me grampear na cama, me atirou contra uma janela. Com todos os membros imobilizados, aterrissei de cabeça, rachando o vidro e minha testa. Nunca fiquei tão feliz com tanto sangue. A situação atingiu o parâmetro irreversível. Fui expulso da clínica conviver e transferido para zona sul, para o Parque Julieta, aonde me enxerguei com noventa quilos discutindo a existência de deus em uma bola de manteiga com as carpas do lago. Foi nesse mesmo lago em que encontrei o primeiro psicólogo disposto a somente me ouvir. Falei tanto ao ponto do som da minha voz me causar preguiça existencial. Aos poucos fui murchando. Fui perdendo o pique de fazer minha carreira nas alas psiquiátricas. Não pertencia aquele lugar, não pertencia a nenhum lugar, eu não morava mais em mim. Alguns meses depois, no meio de um temporal, Marcela, a terapeuta ocupacional, e eu, compramos uma saca de um quilo de semente de girassol e fomos até o morro das corujas. Chegando lá, fiz um pequeno buraco no saco e despejei aquele quilo lentamente sobre minha cabeça. Como em uma ampulheta de uma via só, tomei um banho de um quilo de sementes de girassol no meio da chuva, da lama e do sol que começava a aparecer entre as nuvens. Lembro-me de sorrir e do sorriso na cara da Marcela e da sensação de ter encontrado um lugar, mesmo que efêmero, extremamente pontual para minha loucura. De lá para cá entendi que minha cabeça estaria sempre posta nessa gangorra de emoções. De lá para cá eu subi e desci na bolsa de valores e virtudes como quem faz amor. Eu vi a poesia morrer e nascer milhares de vezes dentro do meu peito. Entendi o corpo poético com todas as contradições possíveis no qual minha alma se abriga. Eu sou um poeta e vou morrer um poeta. Do tempo em que eu chupava luz em busca de iluminação pessoal ficou apenas a certeza de que devo manter luz própria. Por mais que escreva, sinto que esse relato está apenas começando. Continuo escrevendo para continuar respirando. É essa minha revolução pessoal e intransferível.               



o homem de trinta
volta a frequentar salas acadêmicas com cadeiras
e não mais bolas de pilates

não deixar a academia atrapalhar meus estudos
acabou atrapalhando minha conta corrente

volto a ser um ser sem luz
das 13:30 até às 17 e 20

aluno
do latim
alumnu
não sei o que
não sei que lá

sem luz
não significa
sem brilho

a chama acessa
e coronária
essa não cessa

como sergio sampaio
que acelera na copacabana
para caber na métrica
me coloco no meu lugar
para começar tudo outra vez como todo novo começo


eis meu fogo cardeal

e digo mais
Arcoverde era careta
la mala leche, Arcoverde

proibiu o ritmo corta jaca
na corte de ruy barbosa
não tem perdão para você

e hoje em dia, estamos ai,
na
rádio
atividade

narrando coisas
como
como
a novinha
quica no chão

e é isso ai
o homem de trinta nunca deixou de ser o menino de 18

e ele agora é o menino de 18 com mãos de 16 e pés de 42

meus movimentos cansados
denotam tão somente e apenas
que estou inteiro




dessa vez
recolhi os cacos
dessa vez
aparei arestas

dessa vez
peguei o troco
e contei
o troco
como quem
do fundo do coração
queria mesmo
balas esféricas de canela

dessa vez eu ouvi minha voz de dentro
antes do grito mudo
no hospital
da gente

e digo mais
agente se escreve junto 

dar vazão
ao
ódio
represado
antes que a barragem
do amor
desmorone

dar vaso grande
ao
abacate
reprimido
antes que a semente
do perdão
imploda

dispositivo
para amar
sem nenhuma reserva
desativar dispositivo
para amar
sem nenhuma reserva
armar dispositivo
para reservar
algum amor próprio
desativar dispositivos
desativar amores
desativar reservas
eu
me
amo
mas para isso
ainda me falta
uma frota farmacológica
amarelas, vermelhas, azuis
já fui muito faixa preta
agora trabalho com tarjas
eu
deveria
me amar
mas como
posso
me amar
se eu nem me conheço?

título da postagem 21 Apr 2014 1:03 PM (10 years ago)

eu não preciso de mãe diná
pra saber o meu pior
eu não preciso me atirar
da janela do vigésimo andar
eu posso cuspir
eu posso assoviar
para subir
eu tive que descer
.
.
.
um like na vida
um sorvete com a poeta:
valorizo arraso acho mara

...



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i know
that you know
that i know
 that i show
 something
is tearing up my mind

...


tell me, m./
what´s wrong with me this time?



play it fucking load 12 Jan 2014 6:01 PM (11 years ago)

algumas músicas tem esse poder
lírico místico físico
de fazer recuar
o dedo do gatilho


13.01.14


i´m a poet and i know it hope i don´t blow it

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complexo de g.h. 11 Jan 2014 4:10 AM (11 years ago)

enxergar outro ser humano
é como ver uma barata
eu limpo meu espelho
com raid

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capaz
bem capaz
disso da vida
vir a ser um labirinto
sem paredes
sem paredes
   um labirinto invisível/
dentro da cabeça
levas um fauno
carregando o coração
o minotauro
para o próximo passo
te cabe
cabotino
um punhado de instinto
outro de intestino
quando a realidade me entra pelos olhos
o meu pequeno mundo desaba

fogos de artifício
cruzam o horizonte
morteiros de alegria fabricada
a estética da felicidade
empolou
não desce na garganta
nem com água raz
não toquem na minha melancolia
depostos todos os personagens
é ela quem me aninha no colo
ideias suicidas
mantém esse mundo girando

carlos 3 Jan 2014 5:35 PM (11 years ago)



foi ser gauche nessa vida
arrancou com as próprias mãos
uma feia flor do asfalto
e acabou
virou estátua de bronze
em copacabana
discotas pro mar/
a vida pode ser bem dura
mas o póstumo é cruel

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enquanto existir alguém talhando
em qualquer superfície
o que se entenda por linguagem
vai existir poesia/
tire as tintas de um pintor
e o tranque em um quarto com telas em branco
em questão de dias
merda vira tinta
ai você percebe
que não é o meio
e nem a mensagem
é só você
querendo dizer
que existe/
qualquer manifestação de vida é poema
olha em volta
não tem plateia
é você
dentro
de você
é você
quem aplaude
quem vaia
quem acende quem apaga
o holofote
capaz de lançar um facho de luz no céu
capaz de lançar um golpe de sombra na alma

diário popular 29 Dec 2013 11:49 AM (11 years ago)

me atingiu ontem
na contra mão da rua harmonia
uma palavra perdida
bem no meio do meu peito

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ela envia seu adeus
de bratislava
e não há muito o que eu possa fazer
aqui
do outro lado do continente
a não ser transformar em poema
as lágrimas que não caíram
acordei desacordado dentro desse acordo sem cor
no disparate do meu disparate
absurdo compactuado comigo
dentro do meu isolamento glacial
no qual servi meu coração numa colher de sobremesa
agora tudo é uma vitrine
passam os passantes
a admirar os descontos da minha alma